Eu já estava dormindo, e talvez já fazendo funcionar minha máquina de sonhar. Eu achei que todos dormiam, a casa já estava escura e silenciosa. Ouvi passos, pequenos pés rastejavam pelo chão. O barulho era marcante, mas sutil o suficiente para me trazer do sono sem susto.
Abri os olhos e era meu filho, que há sete anos me chama nas profundezas da noite branca e sombria. Devo acudí-lo, apaziguá-lo... espero pelo choro, que desta vez não vem. Por um átimo, me faço retornar àquelas longas noites em que andamos de mãos dadas pelo reconhecimento da vida, em toda solidão de quem acaba de ser colocado nela.
Agora, o silêncio. Ele não me chama, não pede. Não fala palavra sequer, pois já caminhou no escuro por sete anos.
Ainda atordoada e confusa (será um sonho?), indago com voz duvidosa:
__ Algo de errado, filho? O que houve?
Ele responde manso, como quem já está acordado antes mesmo do dia iluminado chegar:
__ Nada, só vim te trazer isto.
Coloca em minha cabeceira um coelhinho de chocolate, embrulhado num papel de ouro reluzente; chego a enxergá-lo de olhos fechados. Não me diz mais nada, não me beija e não fica em meu quarto. Vira as costas, apaga de novo todas as luzes e se vai.
Volto a escutar seus passinhos, e enquanto tento voltar aos meus sonhos, penso no que o trouxe ali. Antes que o sonho comece e a noite impiedosa venha, um último ato, mas este de amor-coragem.
Eu me lembro de cada noite viva porque estava numa travessia sem chances de alcançar o barco. "Você não há de recordar isso porque a noite ainda te ultrapassa, filho".
Meus olhos se fecham e os sonhos se dissiparam para dentro da casa. Você dormia, nem precisei conferir. O silêncio me disse.
segunda-feira, 26 de março de 2012
quarta-feira, 21 de março de 2012
Viver é caminhar
Não faz mesmo nenhum sentido viver a vida sem ter em mente o que se quer dela. Não é uma simples - porém muito difícil de alcançar - visão de projeção do futuro.
É, ao contrário, pensar o que quero viver agora.
Sei que é ainda mais complexo, pois o momento presente é fugidio. No mesmo instante em que penso sobre ele, ele me escapa. Só posso refletir sobre meu passado, não posso mudá-lo.
É engraçada a sensação de perceber, no momento em que vivo bem o meu presente, um sentimento de plenitude que anda lado a lado de um arrependimento tardio: há muito não consigo viver de fato como agora.
E por quê não? Tenho a esperança infantil de que a vida vai se apresentar para mim, respondendo todas as minhas perguntas, sem parar nem por um instante para saber de mim mesma quais seriam, afinal, essas minhas perguntas.
Resolvi começar então, essa caminhada-do-agora. Simplesmente com uma pergunta que escolhi: "o que vivi hoje"? Sei que a questão está no tempo verbal do passado e só pode ser feita em dias que se passam sem serem notados, mas já é um começo.
A pergunta pode, e deve, ser substituída por um pensamento fugaz, mas marcante, que te toma de assalto: "isso é vida".
É primeiramente uma questão de atenção. Eu me disponho a realmente perceber a vida, a olhando pelo lado de dentro. O que se esquece, comumente, é que acessamos o nosso interior por atalhos tão simples, que são desprezados; um aroma, uma visão de uma folha, os olhos tristes de um cão. E vendo, vivo de fato.
Eu caminho, observo as pessoas, faço compras na feira. Estou ali? Se não estou, para onde tenho ido, sem estar realmente lá?
A triste resposta é "nada ou lugar nenhum". Mais triste ainda é "aonde não quero estar". Contudo, ser triste já é o segundo passo, me animo, pelo simples fato de que já o sei.
Assim é viver e o perceber. O que me deixa, em um ponto frágil e necessário, a meio passo do bem-viver.
A caminhada-do-agora se torna em seguida uma corrida, pois já se disse por aí que a vida é curta. Há de se criar momentos, então, que se sintam (em mim) intermináveis.
Por Carolina Godoi.
É, ao contrário, pensar o que quero viver agora.
Sei que é ainda mais complexo, pois o momento presente é fugidio. No mesmo instante em que penso sobre ele, ele me escapa. Só posso refletir sobre meu passado, não posso mudá-lo.
É engraçada a sensação de perceber, no momento em que vivo bem o meu presente, um sentimento de plenitude que anda lado a lado de um arrependimento tardio: há muito não consigo viver de fato como agora.
E por quê não? Tenho a esperança infantil de que a vida vai se apresentar para mim, respondendo todas as minhas perguntas, sem parar nem por um instante para saber de mim mesma quais seriam, afinal, essas minhas perguntas.
Resolvi começar então, essa caminhada-do-agora. Simplesmente com uma pergunta que escolhi: "o que vivi hoje"? Sei que a questão está no tempo verbal do passado e só pode ser feita em dias que se passam sem serem notados, mas já é um começo.
A pergunta pode, e deve, ser substituída por um pensamento fugaz, mas marcante, que te toma de assalto: "isso é vida".
É primeiramente uma questão de atenção. Eu me disponho a realmente perceber a vida, a olhando pelo lado de dentro. O que se esquece, comumente, é que acessamos o nosso interior por atalhos tão simples, que são desprezados; um aroma, uma visão de uma folha, os olhos tristes de um cão. E vendo, vivo de fato.
Eu caminho, observo as pessoas, faço compras na feira. Estou ali? Se não estou, para onde tenho ido, sem estar realmente lá?
A triste resposta é "nada ou lugar nenhum". Mais triste ainda é "aonde não quero estar". Contudo, ser triste já é o segundo passo, me animo, pelo simples fato de que já o sei.
Assim é viver e o perceber. O que me deixa, em um ponto frágil e necessário, a meio passo do bem-viver.
A caminhada-do-agora se torna em seguida uma corrida, pois já se disse por aí que a vida é curta. Há de se criar momentos, então, que se sintam (em mim) intermináveis.
Por Carolina Godoi.
terça-feira, 20 de março de 2012
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
Em Busca do Tempo Perdido

"É assim com nosso passado. Trabalho perdido procurar evocá-lo, todos os esforços de nossa inteligência permanecem inúteis. Está ele oculto, fora de seu domínio e de seu alcance, em algum objeto material (na sensação que nos daria esse objeto material) que nós nem suspeitamos. Esse objeto, só do acaso depende que o encontremos antes de morrer, ou que não o encontremos nunca.
(...), por um dia de inverno, ao voltar para casa, vendo minha mãe que eu tinha frio, ofereceu-me chá, coisa que era contra meus hábitos. A princípio recusei, mas, não sei por quê, terminei aceitando. Ela mandou buscar um desses bolinhos pequenos e cheios chamados madalenas e que parecem moldados na valva estriada de uma concha de são Tiago. Em breve, maquinalmente, acabrunhado com aquele triste dia e a perspectiva de mais um dia tão sombrio como o primeiro, levei aos lábios uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço de madalena. Mas no mesmo instante em que aquele gole, de envolta com as migalhas do bolo, tocou meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de estraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção de sua causa. Esse prazer logo me tornara indiferente às vicissitudes da vida, inofensivos seus desastres, ilusória sua brevidade, tal como faz o amor, enchendo-me de uma preciosa essência: ou antes, essa essência não estava em mim, era eu mesmo. Cessava de me sentir medíocre, contingente, mortal. De onde me teria vindo aquela poderosa alegria? Senti que estava ligada ao gosto do chá e do bolo, mas que o ultrapassava infinitamente e não devia ser da mesma natureza. De onde vinha? Que significava? Onde apreendê-la? Bebo um segundo gole que me traz um pouco menos que o segundo. É tempo de parar, parece que está diminuindo a virtude da bebida. É claro que a verdade que procuro não está nela, mas em mim. A bebida a despertou, mas não a conhece, e só o que pode fazer é repetir indefinidamente, cada vez com menos força, esse mesmo testemunho que não sei interpretar e que quero tornar a solicitar-lhe daqui a um instante e encontrar intato à minha disposição, para um esclarecimento decisivo. Deponho a taça e volto-me para meu espírito. É a ele que compete achar a verdade. Mas como? Grave incerteza, todas as vezes que o espírito se sente ultrapassado por si mesmo, quando ele, o explorador, é ao mesmo tempo o país obscuro a explorar e onde todo o seu equipamento de nada lhe servirá. Explorar? Não apenas explorar: criar. Está diante de qualquer coisa que ainda não existe e a que só ele pode dar realidade e fazer entrar em sua luz."
TRECHO DE EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO - VOLUME 1 - NO CAMINHO DE SWAN - ESCRITO POR MARCEL PROUST E TRADUZIDO POR MARIO QUINTANA.
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
Uma poesia

DESCOAGULAR
O sangue que corre em minhas veias
varre os sinais e apaga as centelhas
do que não cabe em mim.
Não abraço aquilo que não é meu de direito,
é o céu quem possui as estrelas.
O que corta a pele não desvia o curso do jorro
Ele continua vívido, fluido e vermelho
O que é rubro corre à velocidade
da luz.
Quente como seu bulbo que minha mão alcança,
molhada de vida vivida.
Escorre, alcança, avermelhando
O corpo e o chão.
O que vês não é medo, irmão.
É coragem.
sábado, 28 de janeiro de 2012
Casa que não tenho
Quando eu crescer quero ter uma casa que exista há muitos séculos. Ela teria de estar ali há muitas gerações para que eu entenda que a vida flui devagar, nossas vidas é que são breves.
Não me entenda mal, ela não seria velha, esquecida ou abandonada, não. Seria nova, como que reformada, sem vestígio do tempo. Eu olharia para ela e saberia que tudo pode ser refeito, desfeito e todo recomeço pode partir do mesmo lugar em que já estamos.
Minha casa teria uma vista linda, com muito verde, pássaros e borboletas, para que eu me sentisse sortuda ao me deparar, sem aviso prévio, com uma joaninha furta-cor. É que alguns dias são mesmo simples presentes e aquilo de mais importante aparece em nossas vidas sem precisar pedir.
Eu queria que essa casa ficasse fincada no silêncio, onde pudesse ouvir meus pensamentos e que tivesse chance de falar quando desse vontade, mesmo que fosse para tentar entender o que ainda não sei. De mim, de você, do mundo, da vida.
Nela, um cachorro me esperaria por todo tempo sem cansar e sem se importar se eu resolvesse, de repente, habitar outros mundos. Lá fora, meu filho pequeno (para sempre pequeno em mim) rolaria numa relva macia sorrindo o sorriso largo dos muito amados.
O quarto e a cozinha seriam enormes, e dentro deles, estaria para todo sempre descansando o meu amor, que tem aroma de pão recém saído do forno.
Minha casa não seria grande, mas teria paredes de vidro para que eu visse a todo instante, ao longe, meu caminhar; de onde vim e para onde vou. E se eu não souber nunca, que pelo menos eu possa suspirar ao enxergar a imponência viva de uma montanha, que não vai. Já é.
Não me entenda mal, ela não seria velha, esquecida ou abandonada, não. Seria nova, como que reformada, sem vestígio do tempo. Eu olharia para ela e saberia que tudo pode ser refeito, desfeito e todo recomeço pode partir do mesmo lugar em que já estamos.
Minha casa teria uma vista linda, com muito verde, pássaros e borboletas, para que eu me sentisse sortuda ao me deparar, sem aviso prévio, com uma joaninha furta-cor. É que alguns dias são mesmo simples presentes e aquilo de mais importante aparece em nossas vidas sem precisar pedir.
Eu queria que essa casa ficasse fincada no silêncio, onde pudesse ouvir meus pensamentos e que tivesse chance de falar quando desse vontade, mesmo que fosse para tentar entender o que ainda não sei. De mim, de você, do mundo, da vida.
Nela, um cachorro me esperaria por todo tempo sem cansar e sem se importar se eu resolvesse, de repente, habitar outros mundos. Lá fora, meu filho pequeno (para sempre pequeno em mim) rolaria numa relva macia sorrindo o sorriso largo dos muito amados.
O quarto e a cozinha seriam enormes, e dentro deles, estaria para todo sempre descansando o meu amor, que tem aroma de pão recém saído do forno.
Minha casa não seria grande, mas teria paredes de vidro para que eu visse a todo instante, ao longe, meu caminhar; de onde vim e para onde vou. E se eu não souber nunca, que pelo menos eu possa suspirar ao enxergar a imponência viva de uma montanha, que não vai. Já é.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
Ideia incrível
Davi, de sete anos, está de férias. Ele tem uma agenda da escola onde fica grudado um papel com as fotos, nomes dos pais e telefones dos colegas. A gente vive olhando e telefonando para saber quem está disponível para brincar com ele.
Frustrado com algumas tentativas em vão ele dispara:
__ Essa agenda deveria ser toda "elétrica", já mostrando se o coleguinha está viajando ou não. Seria mais fácil.
__ A palavra certa é digital e conexão entre grupo de amigos. E, sim, isso já existe meu filho, se chama Facebook.
Mesmo tarde demais, adorei que ele tivesse essa ideia sem nem saber do que se trata o Facebook.
Frustrado com algumas tentativas em vão ele dispara:
__ Essa agenda deveria ser toda "elétrica", já mostrando se o coleguinha está viajando ou não. Seria mais fácil.
__ A palavra certa é digital e conexão entre grupo de amigos. E, sim, isso já existe meu filho, se chama Facebook.
Mesmo tarde demais, adorei que ele tivesse essa ideia sem nem saber do que se trata o Facebook.
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